quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Do meio do caminho

           Encontrei no meu pensamento crítico inato, esse querer sempre apurar se o que me dizem é verdade/correto ou não, uma dificuldade extrema na minha relação com a igreja. Não consigo ter reserva mental para todas as incongruências do seu discurso.

           A minha expetativa em relação a Deus tem sido um emaranhado baseado em versículos avulsos, teologia sistemática e ideias gerais que me transmitiram. Ao colocar tudo nas minhas orações acabei por perceber que o desânimo sobrevinha de cada vez que se verificava o Seu silêncio perante as minhas preces.

           Entendi que, se tudo o que Lhe digo pode estar à partida inquinado pela minha ignorância e pelas minhas características psicológicas particulares, vivo numa expetativa irreal e que quase sempre não encontra uma resposta nos meus dias. Isto baralha a vida quando se coloca Deus no centro de tudo. A sensação de culpa por não entender e por esperar e não acontecer entorprece e diminui o que posso ser, para mim e para os outros.

          Pensei: e se eu deixar de orar? Será que esta frustração que me empurra para baixo desaparece? E se eu, acreditando, tendo sido batizado e procurando a vontade do Pai estiver pronto para o passo a seguir e somente viver sem estar obcecado com a oração?

          Foi o que fiz e há já muitos anos que não me sentia tão completo.

          De tudo isto percebo que a religiosidade que Deus pede a cada um poderá não ter a mesma forma.

         Eu sigo O Caminho. Penso em Cristo e no que Ele nos transmitiu: ser sal e luz no mundo, isto é, as ações serem de acordo com a Sua vontade. Amar a Deus e ao próximo como a mim mesmo, isto é, ter sempre a noção de que tudo o que faço ou penso deve ser mediado por esses dois tipos de amor.

        Será hoje então isto: Deus chama-me a viver sem estar preocupado com o que lhe devo dizer ou que tipo de teologia e tradição devo seguir.

        Viverei, então, ciente de que Ele e os seus anjos estão comigo. Não estarei em silêncio porque falará esta vida que lhe dediquei. A Ele toda a glória.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Da maravilha do Espírito Santo

    Há uma forma de o Espírito Santo operar através da surpresa subtil que me traz muita alegria.

    Estou a meio de uma tarefa do meu quotidiano quando um pensamento, que me mostra um novo caminho desejado pelo Pai, me ocorre. Pode vir do nada ou pode ser despoletado por algo que oiço, leio ou vejo.

    Ontem, aconteceu de novo. Uma perceção acerca do que significa ser luz do mundo

    Maravilhoso.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Da escolha primordial

     O meu temperamento leva-me muitas e muitas vezes ao desânimo. Desde criança que é assim. Tenho uma imaginação prodigiosa, pelo que posso avaliar em relação aos que me rodeiam, e isso faz-me sempre olhar para o futuro de ângulos que muitas vezes me trazem tristeza por saber que nunca poderei viver o que imagino como possiblidade. 

    É assim. Aprendi a viver com isso e a tentar fintar esse sentimento. Umas vezes corre bem e outras não, mas está perfeitamente dominado.

    O que importa é que esse desânimo apanha muitas vezes a minha relação com o Pai. Náo é por não ter certeza da salvação. Isso é uma questão bíblica simples. Tenho é muitas vezes dúvidas que Ele considera o que Lhe digo.

    Tudo o que disse até aqui é só uma introdução ao que verdadeiramente quero dizer neste post, que é o seguinte: mesmo sentindo que o Pai parece amar muito mais outras pessoas do que eu, sinto-me extasiado em apanhar do chão as migalhas que Ele deixa cair da mesa. E é por isso que em momentos de dúvida eu escolho sempre falar com Ele e acreditar que existe e que Jesus Cristo, que morreu por mim, é o meu mestre. Sim, eu escolho sempre acreditar na existência e presença do Pai e considero-o o maior tesouro da minha caminhada. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Do que não temos direito como filhos do Pai

     Ontem, numa reunião de estudo bíblico de uma igreja batista em que costumo participar, falou-se sobre os últimos versículos de Mateus 25. 

    No verso 42 e 43 Jesus identifica-se com os que tiveram fome, sede, com o estrangeiro que não foi acolhido, com doentes, com os que não tinham nada para vestir e, por fim, com os presos. Quem não acudir aos necessitados irá para o Inferno.

    Pensei em D., agora preso e a quem nunca visitei. A minha mente entretém, desde que soube que ele andava a passar droga, a ideia de que não merece que eu me esforce por ele. Desisti de D. e ontem Jesus disse-me numa mensagem que atravessou dois milénios que eu, como filho do Pai, não o posso fazer.

    Estou ainda sem saber o que fazer com o que falámos ontem. Não sei se tenho coragem de visitar D. na prisão.  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Da quietude desejada

    Vejo neste blogue quase sem visualizações uma semelhança com os cultos de domingo em que tenho participado. Só o pastor sabe o meu nome, tal como só alguns queridos chegados sabem destas reflexões e quem sou. Que eu saiba, de um grupo de seis, só um o lê regularmente e um outro de vez em quando.  

    Não ser o foco das atenções sempre me pareceu o ideal. Encontro muito conforto no desconhecimento que o mundo tem de mim. Não que tenha algo a esconder ou culpa a ser descoberta. Penso ser só a sensação de segurança e de alivio de quem já falhou tanto e se arrepende de muito que disse e fez em público como escritor, blogger e cristão. 

    Agradeço ao Pai esta prenda de poder viver uma vida quotidiana em que só tenho de lidar com três colegas de trabalho e com a família. Agradeço-Lhe também a quietude deste blogue e a serenidade anónima dos cultos de domingo de manhã.   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Do produto imediato e satisfatório

    Tenho pensado em como a cultura cristã evangélica com origem norte-americana parece promover um imediatismo que não encontro em outras tradições cristãs. 

     O tipo de conversão damascena de Paulo, por exemplo, terá passado a ser considerado o desejável e, muitas vezes, o único válido. Uma vez confessada a entrega da vida a Cristo, o mesmo se passará com a aceitação pública de Jesus como Salvador ou com a impossiblidade de se perder a salvação.

    De certo modo, haverá, talvez, uma imediaticidade desejada que se poderá comparar a um moderno modo de comodidade como outras que nos rodeiam. A inscrição participativa ou o produto que se adquire terão a sua relação com este modo de viver o cristianismo.