sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Estar presente no mundo

Viver como se isso se tratasse de uma dádiva é uma graça do Pai.


É preciso disciplina e repetição de atitude para aprender a olhar agradecido em volta e pensar o momento, o que se vê, ouve e sente, como parte dessa extraordinária aventura que é a vida. Não chegamos todos lá, como cristãos. Muitos sentem-se aborrecidos com a vida terrena, na expetativa da próxima. Esse não é o meu caso.


Como disse Henry David Thoreau no seu leito de morte quando lhe perguntaram pela Eternidade, também eu digo "Um mundo de cada vez". Agora estou aqui, por vezes dorido e triste, é certo, mas sempre deslumbrado.


 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

A variedade dos evangelhos

Penso na diferença entre os evangelhos: na simplicidade do de Marcos, na estrutura Judaica do de Mateus, na teologia paulina do de Lucas e na independente genialidade de João.


O primeiro, o mais antigo, e o último, o mais recente, parecem-me os mais substantivos. Como seria a Igreja de hoje se tivessem sido os únicos a chegarem a nós? Talvez diferente, talvez não, mas, com certeza, com o que era indispensável à revelação do Pai.   

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

No fundo do poço

Visito-o na ala Psiquiátrica do hospital da Amadora. Músico, bipolar e toxicodependente, no auge da crise que o levou ali, em que já estava a viver na rua procurando unicamente forma de arranjar dinheiro para o próximo chuto de crack, vendeu todo o seu material musical, inclusivamente o que eu lhe tinha oferecido. Abraçamo-nos durante muito tempo, comovidos, e depois ele mostra-me as barras nas janelas numa visita guiada em que encontramos outros doentes a deambular. Vejo que tem um Novo Testamento, com acrescento dos livros de Salmos e Provérbios, dos Gideões Internacionais, na mesa de cabeceira. Conversamos e no fim ele pede-me sugestões de salmos. Indico-lhe o 88 e o 139 e recomendo-lhe que os leia nessa ordem.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Do Sudário

Volto ao meu interesse pelo Sudário de Turim, à procura de novidades acerca desse grande mistério.


Acho que a Reforma Protestante, como aconteceu com as disciplinas espirituais, também no que diz respeito às relíquias da cristandade terá deitado fora o bebé com a água do banho. 


O meu fascínio pelo Sudário, o artefacto mais estudado no mundo, mantém-se. E se for mesmo a única prova física, não só da existência de Cristo, mas também da Sua ressurreição?

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Do vazio do Homem

Existe no Homem um vazio do tamanho de Deus.


A frase é de Dostoievsky e, conforme vou ficando mais velho, é uma das únicas certezas que tenho.


Olho à minha volta e a angústia é omnipresente, independentemente de na vida tudo estar a dar certo ou errado. Aprendi que esse mal-estar, essa sensação de que, apesar do sucesso, há algo em falta, é o principal caminho para que se possa reconhecer o Pai e o seu estender de mão na nossa direção.


 

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Pensar o que não se quer pensar

Falo com J acerca de como os nossos piores pensamentos surgem, muitas vezes, de uma forma espontânea e involuntária. Ele diz-me que só os gurus indianos é que conseguem controlar essa atividade da mente. Eu contraponho que, com Cristo, não só é possível controlar o que fazer a seguir com esses pensamentos, mas também assistir ao seu desaparecimento gradual da nossa mente. 


Vivemos numa sociedade cristã que não faz ideia do que o Pai pode, e quer, fazer por nós.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Do que começa

As mãos de Jesus tocando o enfermo. As palavras de Jesus tocando o sem esperança. Os passos de Jesus sendo seguidos.


Em todos, no momento seguinte, há algo se inicia: a vida que nascemos para viver. 


Graças ao Pai.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Da liberdade

A leitura crítica da Bíblia, que creio ter-me sido dada pelo Pai, foi uma verdadeira libertação.


Nela emerge a Sua Revelação de um modo muito mais poderoso do que quando acreditava que tudo naquela coleção de textos era literal e histórico. 


Foi, sem dúvida, uma das grandes graças que Ele me deu. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Da apologética interna

Habituei-me a pensar no Antigo Testamento como a narrativa das aventuras de um povo reescritas por motivos políticos e de poder.


Às histórias que fariam parte da tradição oral teriam sido acrescentados muitos episódios que legitimassem, sob capa de piedade religiosa, não só a destruição das outras tradições, como também a exaltação da genealogia do próprio Josias,  o compilador do Pentateuco.


Com exceção dos livros sapienciais (Salmos, Eclesiastes, Provérbios e Cantares de Salomão, em que é o individuo que está no assunto, como no Novo Testamento), todos os restantes me parecem encomendados.


É por isso que a personalidade do Deus de Amor do NT não poderia ser a mesma da do Antigo, que ordena a destruição de cidades e o extermínio de mulheres e crianças. Referem-se ao mesmo Deus, mas a segunda é propaganda. 


É isto que, intelectualmente, me permite ser cristão.  

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Da mudança

O papel da igreja na vida do cristão mudou.


Se antes era a única forma que havia de aprofundar o conhecimento, foi, entretanto, substituída por livros, depois por programas de televisão e rádio e, agora, de um modo esmagador, pela internet.


O conhecimento deixou de ser ministrado pela congregação local. Esta passou a ser só um dos diversos recursos ao dispor.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Do espinho

O Pai concedeu a Paulo o "espinho na carne", para que este não achasse que as suas façanhas espirituais tinham algo a ver com mérito. 


Não creio que o remédio tenha de ser o mesmo para cada um de nós que se considera na dependência de Deus. No entanto, cada forma de poder que administro (na família e no emprego, por exemplo) tem de ser considerado uma responsabilidade que me foi dada e não algo de que me deva orgulhar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Da pobreza material

Trabalho, sempre trabalhei, e tenho família. Aflige-me a consciência de que o que hoje tenho já não mudará para melhor. A impressão de que caminho sobre gelo fino, de que sou pobre e de que serei sempre cada vez mais pobre conforme for envelhecendo, passou a certeza. Não há planos que eu consiga elaborar para mudar a situação. As minhas preces ao Pai sobre o assunto não são atendidas. Cheguei a esta altura da minha vida sem esperança de que a possibilidade de miséria me deixe. Dia a dia, o Senhor vai-me ajudando a habituar-me à ideia.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Do que não se vê e luta

As implicações de uma mundo espiritual ativo à minha volta, com entidades que lutam por ter influência sobre mim e sobre os outros, são demasiado sérias para que as possa ter sempre, de um modo consciente, em conta. Não há mérito nisso, claro, pelo contrário, mas ter em conta o mundo invisível a cada momento é um pensamento que eu tento evitar para viver em paz. 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Da exceção

Na vida de oração existem momentos que são mais intensos. Muitíssimo mais raros do que as preces de agradecimento e pedidos quotidianas, impressionam-me por saber que são marcados por um aceder a uma profundidade na minha alma com a qual acho que não mereço me identificar.


Presumo que poderiam ser mais comuns se o processo de santificação fosse mais robusto em mim. No entanto, há algo que me faz desejar que sejam assim, tão raros como transformadores. É como se estivesse agradecido por não me ser pedida essa responsabilidade.