sexta-feira, 30 de maio de 2025

Falarmos a uma só voz

Há já algum tempo que reflito sobre a obsessão, por parte dos cristãos, de acharem que só há um modo de pensar a Bíblia e o cristianismo. Cada seita, grupo ou igreja considera que há uma única forma correta de o cristianismo poder ser vivido do modo que o Pai deseja. Há uma interpretação sem mácula da Bíblia, e da tradição, e todas as outras devem conformar-se a ela. A contradição é evidente e, ao mesmo tempo, engraçada. 


Ao caminhar com a realidade, e não com o meu desejo de realidade, é simplesmente honesto admitir que desejar a uniformidade não faz sentido. O que faz é, ao contrário, aceitar que o cristianismo "bate" de maneiras diferentes na mente e sentimentos das pessoas. Há pessoas que se consideram cristãos e não concordam com a ideia da Trindade,  os que têm uma Bíblia com mais livros ou ainda, por exemplo, os que não concordam com a ideia de inerrável quando aplicada às Escrituras. 


Só se explica a necessidade de falarmos todos a uma só voz, isto é, defendermos todos a mesma doutrina, por insegurança, desejo de controlo e  orgulho, parece-me. Mas ainda tenho de pensar mais sobre o assunto.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Das complicações (des)necessárias no cristianismo

O Rosário é um artefacto muito curioso. Um pouco como as máquinas de fumo  e as bandas pop de muitos cultos evangélicos de hoje, parece algo que foi longe demais no desenvolvimento de um propósito. A complexidade do manuseio adequado, por um lado, e a perplexidade, por outro, que me causam as regras absurdas do manual de instruções do aparelho, dizem-me que esta máquina de meditar nunca será para mim. 


Não obstante, percebo o entusiasmo de puzzle de 10 mil peças concluído que o Rosário deve fazer sentir a quem se dá ao trabalho de o completar. Isso deve ser precioso.


 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Retirar os obstáculos

Foi uma libertação quando passei a tomar por secundárias a tradição das igrejas e a ideia de que a Bíblia é inerrável.


Retirados esses interessantes obstáculos, a vista ficou desimpedida para assumir somente os dogmas pessoais que a minha experiência com o Pai tem criado. 


Podendo parecer um contra-senso, em vez de isto me tornar cada mais individualista, acho que me tornou um muito melhor jogador de equipa, no que ao cristianismo diz respeito.    

terça-feira, 27 de maio de 2025

Correr e falar com Deus

Sinto prazer em orar e em correr e, por vezes, junto as duas atividades, como aconteceu hoje ainda antes de o dia nascer.


Há qualquer coisa no ritmo da passada, e no da respiração, que facilita a conversa com Deus. Penso nisto e acho que percebo um pouco melhor as tradições religiosas que usam a repetição, quer para atingirem estados raros e místicos de ligação ao divino, quer para reforçarem, com o esforça da ladainha, o seu comprometimento com o que dizem ou cantam. Sou até, de certo modo, fascinado por isso. As danças do grupo dos  Dervishes, sufis muçulmanos, ou esse grande mistério que é o uso do rosário pelos católicos, são bons exemplos.  


É muito interessante como os princípios físicos são tantas vezes facilitadores dos espirituais.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Maria salva?

Um dos meus músicos preferidos é Arvo Part, cujas composições são marcadas pela religiosidade. Numa das obras do compositor Estónio canta-se "Most Holy Mother of God, Save Us."(Santa Mãe de Deus, salva-nos), algo comum em preces marianas, segundo consegui entender.


Não sendo católico, fui tentar perceber a base da perceção que permite pensar que Maria salva e confirmei o que já sabia: que para a Igreja Católica Romana, e para a Igreja Ortodoxa nas suas variantes, a mãe de Jesus é, além deste, a única personagem do Novo Testamento que está simbolicamente presente e é referida, de modo indireto, no Antigo Testamento. No entanto, não tendo encontrado nenhuma referência ao poder de Maria para salvar, uma vez que, segundo a Igreja, isso só está ao alcance de Cristo, fico-me a perguntar de onde virá a ideia explícita na música de Part. Suspeito que tenha a ver com a ideia de co-redenção esticada até ao limite, mas é só uma suposição.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Do silêncio perante a discórdia religiosa

Ao longo do anos aprendi a calar a maior parte das minha opiniões em termos religiosos quando estas são diferentes, ou mesmo contrárias, às dos que com quem converso.


É agudo o desconforto causado por uma ideia que vai contra o que se tem como base de uma fé religiosa. Coisa intima, muitas vezes ligada de um modo muito forte a sentimentos sociais, familiares e existenciais, quando a crença é posta em causa pode causar dor e até, por instinto, ser confundida com agressão.


E, bem vistas as coisas, qual é a vantagem de se mudar o que para nós é bom e não faz mal a ninguém? Pode argumentar-se que a Verdade é importante para todos e que deve ser dita. Todavia, o que muitas vezes tomamos como verdade é, a maior parte das vezes, só opinião. Porque haveria a minha opinião de ser assim tão relevante para que, com ela, o outro fique a sentir-se sem pé? Sim, não é importante e ainda bem.